Nixon na berinjela
Os humanos, como outros primatas, são um bando gregário. Gostamos da companhia um dos outros. Somos mamíferos, e o cuidado dos pais com o filhoé essencial para as linhas hereditárias. Os pais sorriem para a criança, a criança retribui o sorriso, e com isso se forja ou se fortalece um laço. Assim que o bebê consegue ver, ele reconhece faces, e sabemos agora que esta habilidade está instalada permanententemente em nossos cérebros. Os bebês que há um milhão de anos eram incapazes de reconhecer um rosto retribuíam menos sorrisos, eram menos inclinados a conquistar o coração dos pais e tinham menos chances de sobreviver. Nos dias de hoje, quase todos os bebês identificam rapidamente uma face humana e respondem com um sorriso bobo.
Como um efeito colateral inadvertido, o mecanismo de reconhecimento de padrões em nossos cérebros é tão eficiente em descobrir uma face em meio a muitos outros pormenores que às vezes vemos faces onde não existe nenhuma. Reunimos pedaços desconectados de luz e sombra, e inconscientemente tentamos ver uma face. (...)
De vez em quando, um legume, uma disposição de sementes silvestres ou o couro de uma vaca parece uma face humana. Houve uma famosa berinjela que se parecia muitíssimo com Richard M. Nixon. O que devemos deduzir desse fato? Intervenção divina ou extraterrestre? Intromissão republicana na genética das berinjelas? Não. Reconhecemos que há muitas berinjelas no mundo e que, de posse de um grande número delas, mais cedo ou mais tarde encontraremos uma que se assemelha a uma face humana, até mesmo a um rosto em particular.
Quando o rosto é de uma personagem religiosa — como, por exemplo, uma tortilla que parecia mostrar a face de Jesus —, os crentes tendem rapidamente a deduzir a mão de Deus. Numa era mais cética, eles anseiam por ver a sua certeza renovada. Mesmo assim, parece improvável que um milagre seja produzido num meio tão evanescente. Considerando-se o número de tortillas produzidas desde o início do mundo, seria surpreendente que algumas não tivessem traços pelo menos vagamente familiares.
SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Trad. Rosaura Eichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 57-58.